quinta-feira, 20 de junho de 2013

As Nigellas

A propósito das noticias que tem saido sobre a relação abusiva da chef britanica Nigella Lawson e do seu marido, texto brilhante e assustadoramente veridico da jornalista Raquel Costa sobre todas as Nigellas da vida.E infelizmente conheço tantas (e tantos)...

"AS NIGELLAS

Eu.
Não fui àquele jantar de curso. Fiquei à espera, em casa, que ele me mandasse uma mensagem. Porque ele tinha dito que queria fazer alguma coisa. E ele não disse nada. E eu não estive com os meus amigos (que sabiam as razões da minha recusa...mas nada disseram). E nesse dia, como noutras ocasiões semelhantes, perdi um bocadinho da minha dignidade. E foi o cabo dos trabalhos para a ...recuperar.

Tu.
Mudaste a tua forma de vestir quando a coisa se tornou séria. Nunca mais te vi com aqueles decotes sexy, com aqueles penteados malucos que inventavas quando íamos beber um copo ao bairro. Quando fui a vossa casa, puseste um disco de jazz a tocar. "Desde quando é que gostas de jazz?". "O Miguel adora. É o que ouvimos cá em casa", dizes, enquanto tiras um cigarro de uma lata escondida no fundo do armário. "O Miguel detesta que eu fume", explicaste, com uma gargalhada nervosa.

Ele.
Era a alma da festa. Quando chegava, toda a gente sabia. Um copo para ali, outro para aqui, conhecia todos, em todo o lado. As ex-namoradas idolatravam-no, chegavam a convidá-lo para os baptizados dos filhos, para desespero dos maridos e confusão das sogras. De repente, deixou de aparecer. "A Sandra não gosta de sair", explicava aos amigos. Quando ainda lhes atendia o telefone. Depois deixou de o fazer. E de responder às mensagens. Quando dei por isso, já não éramos amigos no Facebook. "A Sandra pediu-me para apagar a conta. É melhor, assim não caio em tentação".

Nós.
Nós somos as Nigellas. Nós que nos anulamos, nós que nos transformamos, nós que nos moldamos aos vossos gostos. Nós somos os que existimos para legitimar a vossa existência. E quanto mais pequenos somos, maiores vocês se sentem. "Isto é mesmo amor!", pensamos nós. "É a minha última oportunidade", achamos. "Queres mesmo ficar sozinha?", perguntam-nos. E nós, as Nigellas, achamos que não. Que mais vale estar assim. Mesmo que não seja bonito todos os dias, um dia vai valer a pena. Pelas crianças, por nós. E eu? Ups, esqueci-me."

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